A inocência
tem se tornado uma das maiores “virtudes” da sociedade contemporânea. A
história nos mostra que períodos de crise fazem aflorar nos seres humanos o
instinto de sobrevivência. A busca por segurança faz com que soluções
milagrosas sejam consideradas o antídoto para as mazelas que os assolam. Se
enganam, porém, aqueles que acreditam que as crises ocorrem sempre pelo acaso
do destino e afetam todas do mesmo modo. Por este motivo é que indago: a
educação, por si só, resolveria os problemas sociais, econômicos e culturais do
globo? Existem aqueles que acreditam que sim. No entanto, a recente crise
econômica de 2008 originada pela bolha imobiliária dos EUA mostra que ninguém
está imune a vicissitudes. Mas o mais interessante é que a crise não só é
inevitável como também é estimulada. Fala-se muito em crise do petróleo, crise
do capitalismo, crise da Previdência Social, crise do sistema de segurança
pública. Muitas vezes, porém, antes mesmo do surgimento da crise já existe a
solução para ela, como se a vacina já houvesse sido criada antes da existência
do vírus. A reflexão que devemos fazer é sobre o que está por trás das cortinas.
Quem monta o cenário? Quem escolhe o enredo?
A política do medo como estratégia
econômica e política
Michael
Moore, no premiado documentário Bowling
for Columbine (Tiros em Columbine, no Brasil) expõe de forma curiosa como a
política do medo tem sido usada de forma a gerar lucros para as grandes
corporações e manter o poder político nas mãos de grandes empresários. O
diretor debate a falsa segurança armamentista e violenta estimulada nos EUA que
é o país detentor de maior população carcetária do mundo e, nem por isso, é o
menos violento. O medo, definido pelo Dicionário Aurélio como “um sentimento de
grande inquietação ante a noção de um perigo real ou imaginário, de uma ameaça;
susto, pavor, temor terror”, é um dos indutores de comportamento mais utilizados
ao longo dos séculos. Nem mesmo os intelectuais e estudiosos estão protegidos
do tecido social que engole os homens dito livres e neles aflora a insegurança,
o medo da escassez e a necessidade de consumo do produto vendido pelo
ventríloco. Esse produto não se resume àquilo que é vendido em supermercados,
pode ser uma idéia, uma ação, um estilo de vida. Por isso que apenas o acesso à
educação não é bastante para resguardar os homens do maniqueísmo daqueles que
movem as cordas. O antifármaco é a consciência crítica, é a visão de mundo, que não é alcançada apenas
pela lições ensinadas na escola. Nesse
contexto é relevante a atuação da pessoa de forma deliberativa. Para o
sociólogo Teubner Günther isso ocorre
quando o indivíduo é cidadão e pessoa de direito. Cidadão ao ser autor de
normas jurídicas e se posicionar criticamente em relação a elas. Pessoa de
direito, quando se torna destinatário das normas que ajudou a elaborar. Por esse motivo, é latente a vulnerabilidade
de democracias recentes como a brasileira. Quando se fala em pessoa
deliberativa no Brasil é perceptível que a dupla face desse conceito não existe
em sua plenitude. O problema disso é que esse distanciamento do povo dos
núcleos de onde emanam as leis e regulamentos faz com que haja um enfraquecimento
do processo democrático. Essa ausência popular na determinação dos rumos
políticos do Estado permite a manutenção de núcleos paralelos de poder. Estes
não representam o povo e os interesses oriundos da vivencia social, mas
legitimam os interesses de minorias. Desse modo, as leis, que seriam a mais
poderosa ferramenta de limitação do poder arbitrário e de garantia da igualdade
material, acabam por revelar as paixões e caprichos de uma elite socialmente
irresponsável.
A arte imita a vida e a vida
imita a arte
A série norte-americana House of Cards,
criada por Beau Willimon para o site Netflix, evidencia como o poder político e
econômico vivem em um mutualismo perigoso, que prioriza os interesses de
minorias e corroboram para a manutenção de certo status quo. Ingênuo, portanto, é o povo, que se deixa conduzir por
manobras eleitoreiras, comos os recentes ataques à Presidente Dilma,
estimulados por uma elite rica, por parcela da mídia brasileira e por
interesses de grupos econômicos e nações estrangeiras. Ou que acredita ser
possível entregar seu destino aos governantes e esperar que estes conduzam suas
vidas ao Olimpo. Não é possível mostrar o caminho exato a ser seguido, o que é
possível é afimar que cada um deve se conhecer e conhecer a realidade factual e
tirar suas próprias conclusões. Só não permita que os cartolas travestidos de
mártires indiquem seu destino, tome as rédeas de sua vida e delibere sobre o
que é melhor para seu futuro.
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