Existem muitos assuntos
que não são debatidos de forma séria no Brasil, drogas é um deles. A política
de repressão às drogas – largamente financiada e incentivada pelos EUA – provou
que a criminalização não é a resposta adequada para esse problema social que
afeta um número crescente de pessoas em todo o mundo. O tema - DROGAS – assim
como o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, é discutido no Brasil
sob uma ótica religiosa e conservadora. O curioso, contudo, é que o pensamento
acrítico está tão arraigado na sociedade brasileira que uma droga como o
alcóol, que provoca milhares de vítimas por ano, é socialmente aceita e
livremente estimulada nos diversos meios de comunicação. Pior, a propaganda das
bebidas alcoólicas, que geralmente está associada à vulgarização, sexualização
e mercantilização do corpo feminino, é veiculada livremente sem nenhum controle
pelos órgãos públicos. A Companhia de
Bebidas das Américas (Ambev), por exemplo, fechou o ano de 2012 como a empresa
mais valiosa da América Latina, individualmente considerada a quarta maior
cervejaria do mundo. Fatos como esses demonstram que a celeuma que envolve o
assunto drogas, sejam elas ilícitas ou não, está muito mais relacionado com o
pensamento dominante na sociedade do que com os malefícios ou periculosidade da
droga em si.
A censura àqueles que
defendem o debate acerca da legalização das drogas
É preciso ter coragem
para dizer que você é favorável ou até mesmo para discutir o assunto drogas no
Brasil. A manipulação da opinião pública é tamanha que há um imenso preconceito
sobre o debate em relação ao tema. É estranho porque quando alguém defende a
regulamentação do uso das drogas já se cria no imaginário das pessoas a idéia
de que o defensor é usuário ou que é fã de Bob Marley ou Kurt Cobain. O
argumento é sempre o mesmo: drogas matam, drogas viciam na primeira vez que se
usa, drogas são a razão da violência do nosso país. No entanto, quando se pede
para o interlocutor dizer o que ele considera droga ele raramente inclui entre
elas o cigarro, a bebida alcoólica, os remédios ou o açúcar. Sim, você sabia
que o açúcar também pode ser considerado um droga? Estudos recentes dizem que a
compulsão por alimentos doces pode ser tão forte e séria quanto a dependência
por álcool, tabaco ou drogas ilícitas. A maioria nunca parou para pensar, mas
aquela Coca-Cola, sagrada para muitos, possui uma enorme porção de açúcar, fato
que pode ser o motivo de esta bebida ser tão viciante.
A legalização
estimularia o consumo?
O argumento de que a
legalização estimula o uso é uma das maiores falácias já inventadas. Para
constatar isso basta comparar o número de usuários de duas drogas lícitas no
Brasil: o cigarro e as bebidas alcoólicas. Apesar de ambas serem permitidas no
Brasil, a postura do poder público quanto à primeira foi totalmente diferente
em relação à segunda. Em relação ao cigarro foram tomadas medidas de conscientização
sobre os efeitos danosos ao organismos somada à regulação da propaganda e à
adoção de políticas públicas ao usuário, fatores que resultaram em considerável
diminuição do uso da droga. Quanto às bebidas alcoólicas isso não ocorreu, pelo
contrário, houve um aumento vertiginoso das vendas. Por quê a publicidade de
bebidas alcoólicas ainda é amplamente aceita e veiculada livremente nos meios
de comunicação?
As drogas como pauta no
marketing político
A
história nos mostra que tudo ocorre em ciclos. Infelizmente, os recentes
acontecimentos ocorridos em todo o mundo evidenciam o ressurgimento de um
reacionarismo típico da década de 30 do século XX. Atores diferentes, mesmo
enredo. O mundo político, como macrocosmos das relações interpessoais, não foge
à regra e traz à baila posições ferozes e sanitizantes em relação às drogas. A
guerra contra as drogas (ilícitas, frise-se) se tornou um objetivo a ser
defendido por aqueles que almejam os cargos políticos.
Ecoam
aos quatro cantos que vao endurecer a legislação, criar a pena de morte,
estabelecer internação compulsória aos dependentes químicos, reestabelecer a
paz e a integridade da sociedade. No entanto, não obstante as apreensões de
drogas pela polícia serem cada vez maiores e o orçamento da segurança pública
cada vez mais gorducho, a violência e a criminalidade não diminuiram. Entretanto,
o reacionarismo não retroage. Não recua porque mesmo sabendo que o problema da
violência não está nas drogas a repressão é lucrativa.
Este
assunto é muito interessante porque muitos dos políticos que ganham campanhas
com o discurso de endurecimento em relação às drogas são diretamente responsáveis
pelo agravamento da violência e demais problemas sociais. Explico. Se o
político for corrupto e desviar recursos públicos isso afetará a realização de
alguma política pública. A falta de políticas públicas gera exclusão social e
esta é uma das principais causas do agravamento da violência. Mas, digamos que
o político seja honesto, mesmo assim ele tem quase 50% de chance de ser
empresário segundo dados do Departamento Intersindical de Assistência
Parlamentar (DIAP). Os empresários costumam ser os donos dos meios de produção
que exploram a mão-de-obra e remuneram os obreiros por meio de salários. A
mais-valia gerada pela produção gera concentração de riquezas nas mão de
poucos, isso gera má distribuição de renda e exclusão social, causando
violência e inúmeros outros problemas sociais.
Algumas conclusões
Ora, se sabemos que a
má distribuição de renda é uma das principais causas da violência porque não
centralizar nela as ações políticas? Aí é que está o cerne da questão. A
transferência de renda mexe no bolso daqueles que estão no poder e eles não
estão dispostos a compartilhar suas riquezas. Pior, muitos se sentiram
incomodados quando milhões de brasileiros que ascenderam socialmente nos
últimos anos passaram a frequentar os mesmos espaços que antes o acesso era
franqueado apenas ao VIPS.
O que se pretende, portanto,
é fomentar a discussão sobre algo que afeta diretamente a vida de todos. Os
relevantes recursos usados no combate às drogas poderiam ser utilizados em
políticas públicas de inclusão social e resgate da cidadania da população. O
mero combate às drogas sem proporcionar aos indivíduos condições dignas de vida
não será efetivo para dirimir os conflitos sociais e melhorar a vivência no
meio social.