quarta-feira, 23 de julho de 2014

Sabia que você pode ser um drogado?

Existem muitos assuntos que não são debatidos de forma séria no Brasil, drogas é um deles. A política de repressão às drogas – largamente financiada e incentivada pelos EUA – provou que a criminalização não é a resposta adequada para esse problema social que afeta um número crescente de pessoas em todo o mundo. O tema - DROGAS – assim como o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, é discutido no Brasil sob uma ótica religiosa e conservadora. O curioso, contudo, é que o pensamento acrítico está tão arraigado na sociedade brasileira que uma droga como o alcóol, que provoca milhares de vítimas por ano, é socialmente aceita e livremente estimulada nos diversos meios de comunicação. Pior, a propaganda das bebidas alcoólicas, que geralmente está associada à vulgarização, sexualização e mercantilização do corpo feminino, é veiculada livremente sem nenhum controle pelos órgãos públicos. A  Companhia de Bebidas das Américas (Ambev), por exemplo, fechou o ano de 2012 como a empresa mais valiosa da América Latina, individualmente considerada a quarta maior cervejaria do mundo. Fatos como esses demonstram que a celeuma que envolve o assunto drogas, sejam elas ilícitas ou não, está muito mais relacionado com o pensamento dominante na sociedade do que com os malefícios ou periculosidade da droga em si.  

A censura àqueles que defendem o debate acerca da legalização das drogas

É preciso ter coragem para dizer que você é favorável ou até mesmo para discutir o assunto drogas no Brasil. A manipulação da opinião pública é tamanha que há um imenso preconceito sobre o debate em relação ao tema. É estranho porque quando alguém defende a regulamentação do uso das drogas já se cria no imaginário das pessoas a idéia de que o defensor é usuário ou que é fã de Bob Marley ou Kurt Cobain. O argumento é sempre o mesmo: drogas matam, drogas viciam na primeira vez que se usa, drogas são a razão da violência do nosso país. No entanto, quando se pede para o interlocutor dizer o que ele considera droga ele raramente inclui entre elas o cigarro, a bebida alcoólica, os remédios ou o açúcar. Sim, você sabia que o açúcar também pode ser considerado um droga? Estudos recentes dizem que a compulsão por alimentos doces pode ser tão forte e séria quanto a dependência por álcool, tabaco ou drogas ilícitas. A maioria nunca parou para pensar, mas aquela Coca-Cola, sagrada para muitos, possui uma enorme porção de açúcar, fato que pode ser o motivo de esta bebida ser tão viciante.


A legalização estimularia o consumo?


O argumento de que a legalização estimula o uso é uma das maiores falácias já inventadas. Para constatar isso basta comparar o número de usuários de duas drogas lícitas no Brasil: o cigarro e as bebidas alcoólicas. Apesar de ambas serem permitidas no Brasil, a postura do poder público quanto à primeira foi totalmente diferente em relação à segunda. Em relação ao cigarro foram tomadas medidas de conscientização sobre os efeitos danosos ao organismos somada à regulação da propaganda e à adoção de políticas públicas ao usuário, fatores que resultaram em considerável diminuição do uso da droga. Quanto às bebidas alcoólicas isso não ocorreu, pelo contrário, houve um aumento vertiginoso das vendas. Por quê a publicidade de bebidas alcoólicas ainda é amplamente aceita e veiculada livremente nos meios de comunicação?

As drogas como pauta no marketing político

A história nos mostra que tudo ocorre em ciclos. Infelizmente, os recentes acontecimentos ocorridos em todo o mundo evidenciam o ressurgimento de um reacionarismo típico da década de 30 do século XX. Atores diferentes, mesmo enredo. O mundo político, como macrocosmos das relações interpessoais, não foge à regra e traz à baila posições ferozes e sanitizantes em relação às drogas. A guerra contra as drogas (ilícitas, frise-se) se tornou um objetivo a ser defendido por aqueles que almejam os cargos políticos.
Ecoam aos quatro cantos que vao endurecer a legislação, criar a pena de morte, estabelecer internação compulsória aos dependentes químicos, reestabelecer a paz e a integridade da sociedade. No entanto, não obstante as apreensões de drogas pela polícia serem cada vez maiores e o orçamento da segurança pública cada vez mais gorducho, a violência e a criminalidade não diminuiram. Entretanto, o reacionarismo não retroage. Não recua porque mesmo sabendo que o problema da violência não está nas drogas a repressão é lucrativa.

Este assunto é muito interessante porque muitos dos políticos que ganham campanhas com o discurso de endurecimento em relação às drogas são diretamente responsáveis pelo agravamento da violência e demais problemas sociais. Explico. Se o político for corrupto e desviar recursos públicos isso afetará a realização de alguma política pública. A falta de políticas públicas gera exclusão social e esta é uma das principais causas do agravamento da violência. Mas, digamos que o político seja honesto, mesmo assim ele tem quase 50% de chance de ser empresário segundo dados do Departamento Intersindical de Assistência Parlamentar (DIAP). Os empresários costumam ser os donos dos meios de produção que exploram a mão-de-obra e remuneram os obreiros por meio de salários. A mais-valia gerada pela produção gera concentração de riquezas nas mão de poucos, isso gera má distribuição de renda e exclusão social, causando violência e inúmeros outros problemas sociais.

Algumas conclusões

Ora, se sabemos que a má distribuição de renda é uma das principais causas da violência porque não centralizar nela as ações políticas? Aí é que está o cerne da questão. A transferência de renda mexe no bolso daqueles que estão no poder e eles não estão dispostos a compartilhar suas riquezas. Pior, muitos se sentiram incomodados quando milhões de brasileiros que ascenderam socialmente nos últimos anos passaram a frequentar os mesmos espaços que antes o acesso era franqueado apenas ao VIPS.

O que se pretende, portanto, é fomentar a discussão sobre algo que afeta diretamente a vida de todos. Os relevantes recursos usados no combate às drogas poderiam ser utilizados em políticas públicas de inclusão social e resgate da cidadania da população. O mero combate às drogas sem proporcionar aos indivíduos condições dignas de vida não será efetivo para dirimir os conflitos sociais e melhorar a vivência no meio social.

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